Introdução

Baleeiros dos Açores

Na segunda metade do século XIX, desenvolveu-se nos Açores, a indústria Baleeira. A caça à baleia foi muito importante na economia e na cultura das ilhas do Faial e Pico. A matéria prima mais importante retirada deste animal era o óleo, para uso em máquinas e instrumentos, mas também se faziam sabonetes, perfumes, produtos para maquilhagem, farinhas, gorduras.

Com o osso faziam-se instrumentos, ferramentas e peças artísticas. A proliferação dos óleos minerais e produtos sintéticos derivados do petróleo veio substituir os óleos animais e as outras matérias primas que se retiravam deste mamífero, sendo que esta actividade económica decaiu com o passar dos anos. Ainda assim, a caça à baleia nas Ilhas só terminou em 1984, altura da sua proibição pelos tratados internacionais da IWC , International Walling Commission.

A arte da baleação nos Açores usou das técnicas mais arcaicas conhecidas pelo homem. Em botes de sete homens, ora à vela, ora a remos, e com arpôes de arremesso à mão, lançavam-se ao mar ao sinal do foguete, lançado pelo vigia, que dos pontos altos das ilhas, passava o dia em busca do respirar dos cetáceos com os seus binóculos.

O bote baleeiro açoreano é uma embarcação única, adaptada a partir das canoas americanas que seguiam a bordo dos grandes navios baleeiros no século XIX. Este foi sendo desenvolvido ao longo dos anos tornando-se mais veloz e ágil, pois as freguesias competiam entre si: mais baleias trancadas significavam mais dinheiro para comprar os produtos externos às ilhas, produtos esses inacessíveis ao comum agricultor açoreano, de subsistência.

Os Açores são um dos locais do mundo onde a tradição e cultura baleeira persiste com algum orgulho. Apesar, de não se caçarem baleias, grande parte do património baleeiro tem sido mantido e recuperado desde 1997, para fins culturais, mas também desportivos, pois as regatas a remos e à vela em bote baleeiro são uma forte tradição.

Nos últimos anos houve também um grande desenvolvimento da indústria do whale watching e, com este crescimento tanto no número de empresas como de pessoas ligadas ao mar para este fim, o DOP (Departamento de Oceanografia e Pescas da Universidade dos Açores) está a criar alguns mecanismos para que todas as observações de cetáceos com fins turísticos contribuam também para um maior conhecimento científico das movimentações dos animais na região.
Foi nas ilhas do Pico e Faial onde a caça à baleia manifestou maior impacto, e é também hoje nestas ilhas onde se encontram as mais importantes regatas de botes baleeiros, assim como o maior número de empresas ligadas ao whale wacthing.

Os baleeiros esses, estão a desaparecer. Os últimos homens a caçarem baleias nos Açores são de uma velha geração que em pouco se identifica com os mais novos e os seus costumes; estes homens têm histórias, maneiras de ver e de viver, que só não desaparecem completamente porque várias pessoas, ao longo dos tempos, se têm preocupado em manter estes valores culturais, através da fotografia, do folclore, dos museus, da escrita (prosa e poesia), nomeadamente com o escritor Dias de Melo, natural do Pico, sentimos a dimensão épica da caça, nos seus romances, com descrições pormenorizadas da vida destes baleeiros no final do século XIX, primeira metade do século XX.

“(…) Nas Lajes,(…) saía o enterro dum baleeiro morto no mar, quando do Alto da Forca anunciaram o bicho. Ia tudo compungido – ia a mulher compungida e os pescadores compungidos, o padre, o sacrista, a cruz e a caldeira – iam aqueles homens rudes e tisnados em passo de caso grave e fatos de ver a Deus – e logo a marcha compassada parou instantaneamente e mudaram instantaneamente de atitude: ficou só o padre com o latim engasgado e o caixão no meio da rua, e os outros, enrodilhados, levaram o sacristão, de abalada, até à praia. Baleia! Baleia!… Deixam um casamento ou um enterro em meio, um contrato ou uma penhora, as testemunhas e a justiça, e correm desesperados a arriar a baleia. No Cais do Pico e nas Lajes ninguém se afasta da praia. Estão sempre à espera do sinal e com o ouvido à escuta, os homens nos campos, as mulheres nos casebres. E enquanto falam, comem ou trabalham, lá no fundo remói sempre a mesma preocupação. São tão apaixonados que até este cheiro horrível, que faz náuseas e que se entranha na comida e no fato, lhes cheira sempre bem.
– Baleia! Baleia!
(..)”
in As Ilhas Desconhecidas, de Raul Brandão

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